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terça-feira, 23 de abril de 2013

O Monge

O Monge



Descobri que sou um monge!
E descobri também que nunca soube o que seria um monge!
Vou lhes contar detalhes de minha incrível descoberta:
Em síntese um monge nunca é um escritor, mas sempre é um leitor. Ele lê, mas o que lê? Por certo, se lê, só pode ser a palavra de Deus; mas ela está na bíblia?
Parece que não, porque a bíblia foi escrita por homens e de acordo com sua interpretação, por mais congênere que fosse.
E o monge não lê palavras...
Ele lê intermitentemente a natureza!
A natureza em toda a sua vasta forma, constitui muitos, infinitos livros. Livros, em geral, de mistérios.
Ele poderá se ocupar lendo uma bananeira. O que tem uma bananeira para ler? Todos já viram que ela dá um fruto muito gostoso chamado banana, mas e daí?
Daí que a bananeira não tem semente e nasceu, diferentemente de outras árvores que nascem sempre da semente.
Poderá ler o olhar de um cão, por exemplo. Esse olhar lhe dirá se o animal o ama e será uma expressão da verdade e não apenas uma impressão ou alguma coisa que alguém lhe contou.
Poderá ler a chuva que cai com incrível variedade... mas sempre para baixo! Sempre para baixo? A chuva, vez por outra, retorna em forma de vendaval.
Poderá ler os peixes nadando. Claro.. peixes nadam mesmo; mas existem os peixes voadores e o mais incrível... eles voam mesmo, embora não tenham aparelhagem igual à das aves.
Se o monge quiser poderá ler que existem rios de água doce e salgada e nele há vidas diferentes, mas vai se surpreender com a pororoca. As águas doce e salgada vão se encontrar, mas não vão se fundir e a vida que há nelas não mudará de lado.
O monge poderá ler sua própria pele e notar o seu envelhecimento e deterioração e vai se consolar vendo que tudo envelhece e deteriora. O ferro envelhece e deteriora, é a chamada ferrugem; a planta amadurece e apodrece; uma árvore cresce e morre; um objeto, como um relógio de pulso, por exemplo, funciona com dificuldade após um tempo, depois pára, oxida e enfim encontra sua deterioração. Tudo deteriora! Mas tudo mesmo? O ouro não! Ele é sempre como se fosse o primeiro dia. Não é sequer possível fazer um teste do carbono 14 confiável no ouro.
E o monge vai ler em todos os objetos, naturais e artificiais, seres animados e inanimados, no mar revolto e profundo, mas em todos eles o monge vai ler que eles tem fim; são finitos. E o mundo? Ele questionará! Como pode o mundo ser infinito.
Ele vai constatar uma coisa fantástica. Verá no seu grande raciocínio a prova de sua pequenez, porque se o mundo não pode ser infinito é, igualmente impossível que tenha fim.
O monge vai constatar a impossibilidade do fim do universo quando perguntar ( o que por certo vai acontecer ) o que é que tem após o fim do mundo?
A incoerência será outro milagre porque se tem alguma coisa depois do fim do mundo, ainda que seja o "nada", haverá alguma coisa e portanto não pode ser finito. Isto é mais assustador do que a infinitude do universo.
E quando se deparar com esse estrondoso problema é certo, absolutamente certo, que o monge vai ser levado a ler a alma!
Lerá a alma, que ele mesmo poderá chamar de espírito, de energia, de luz, do que quer que seja. Vai olhar à sua volta e vai constatar que todos os objetos necessitam de uma energia para funcionar. Essa energia será, para o monge, como talvez, a alma.
Assim ele verá que o computador usa energia elétrica e sem ela ele será um objeto totalmente "morto". Verá também ao acender um fogo, que a chama depende do gás que está no tambor ou que vem pelo encanamento e assim que se desligar o gás, o fogão vai parar de funcionar, e que todos os objetos são assim, como para o carro está o combustível.
E todos os objetos são assim: para o carro está o combustível. E é claro que o monge verá, como todos veem, que aí não há milagre algum, e que se assemelham sim à alma, mas só que a alma não tem nenhum fiozinho... nada que lhe dá a energia e que essa energia, muito possivelmente, pode ser a mesma da finitude do universo, ou seja pode ser infinita como o próprio universo.
O monge não pedirá nada para seu pai, Deus, porque já ganhou tudo, mas se distanciou cedo do pai e portanto, agora, quer conhecê-lo bem. Vai tentar conhecer o pai por sua obra, como se conhece o poeta por sua poesia, o pintor por sua gravura e o compositor por seu livro ou música.
Ele quer conhecer o pai para poder encontrá-lo à qualquer hora.






Carlos da Terra