domingo, 27 de setembro de 2020


 

terça-feira, 23 de abril de 2013

O Monge

O Monge



Descobri que sou um monge!
E descobri também que nunca soube o que seria um monge!
Vou lhes contar detalhes de minha incrível descoberta:
Em síntese um monge nunca é um escritor, mas sempre é um leitor. Ele lê, mas o que lê? Por certo, se lê, só pode ser a palavra de Deus; mas ela está na bíblia?
Parece que não, porque a bíblia foi escrita por homens e de acordo com sua interpretação, por mais congênere que fosse.
E o monge não lê palavras...
Ele lê intermitentemente a natureza!
A natureza em toda a sua vasta forma, constitui muitos, infinitos livros. Livros, em geral, de mistérios.
Ele poderá se ocupar lendo uma bananeira. O que tem uma bananeira para ler? Todos já viram que ela dá um fruto muito gostoso chamado banana, mas e daí?
Daí que a bananeira não tem semente e nasceu, diferentemente de outras árvores que nascem sempre da semente.
Poderá ler o olhar de um cão, por exemplo. Esse olhar lhe dirá se o animal o ama e será uma expressão da verdade e não apenas uma impressão ou alguma coisa que alguém lhe contou.
Poderá ler a chuva que cai com incrível variedade... mas sempre para baixo! Sempre para baixo? A chuva, vez por outra, retorna em forma de vendaval.
Poderá ler os peixes nadando. Claro.. peixes nadam mesmo; mas existem os peixes voadores e o mais incrível... eles voam mesmo, embora não tenham aparelhagem igual à das aves.
Se o monge quiser poderá ler que existem rios de água doce e salgada e nele há vidas diferentes, mas vai se surpreender com a pororoca. As águas doce e salgada vão se encontrar, mas não vão se fundir e a vida que há nelas não mudará de lado.
O monge poderá ler sua própria pele e notar o seu envelhecimento e deterioração e vai se consolar vendo que tudo envelhece e deteriora. O ferro envelhece e deteriora, é a chamada ferrugem; a planta amadurece e apodrece; uma árvore cresce e morre; um objeto, como um relógio de pulso, por exemplo, funciona com dificuldade após um tempo, depois pára, oxida e enfim encontra sua deterioração. Tudo deteriora! Mas tudo mesmo? O ouro não! Ele é sempre como se fosse o primeiro dia. Não é sequer possível fazer um teste do carbono 14 confiável no ouro.
E o monge vai ler em todos os objetos, naturais e artificiais, seres animados e inanimados, no mar revolto e profundo, mas em todos eles o monge vai ler que eles tem fim; são finitos. E o mundo? Ele questionará! Como pode o mundo ser infinito.
Ele vai constatar uma coisa fantástica. Verá no seu grande raciocínio a prova de sua pequenez, porque se o mundo não pode ser infinito é, igualmente impossível que tenha fim.
O monge vai constatar a impossibilidade do fim do universo quando perguntar ( o que por certo vai acontecer ) o que é que tem após o fim do mundo?
A incoerência será outro milagre porque se tem alguma coisa depois do fim do mundo, ainda que seja o "nada", haverá alguma coisa e portanto não pode ser finito. Isto é mais assustador do que a infinitude do universo.
E quando se deparar com esse estrondoso problema é certo, absolutamente certo, que o monge vai ser levado a ler a alma!
Lerá a alma, que ele mesmo poderá chamar de espírito, de energia, de luz, do que quer que seja. Vai olhar à sua volta e vai constatar que todos os objetos necessitam de uma energia para funcionar. Essa energia será, para o monge, como talvez, a alma.
Assim ele verá que o computador usa energia elétrica e sem ela ele será um objeto totalmente "morto". Verá também ao acender um fogo, que a chama depende do gás que está no tambor ou que vem pelo encanamento e assim que se desligar o gás, o fogão vai parar de funcionar, e que todos os objetos são assim, como para o carro está o combustível.
E todos os objetos são assim: para o carro está o combustível. E é claro que o monge verá, como todos veem, que aí não há milagre algum, e que se assemelham sim à alma, mas só que a alma não tem nenhum fiozinho... nada que lhe dá a energia e que essa energia, muito possivelmente, pode ser a mesma da finitude do universo, ou seja pode ser infinita como o próprio universo.
O monge não pedirá nada para seu pai, Deus, porque já ganhou tudo, mas se distanciou cedo do pai e portanto, agora, quer conhecê-lo bem. Vai tentar conhecer o pai por sua obra, como se conhece o poeta por sua poesia, o pintor por sua gravura e o compositor por seu livro ou música.
Ele quer conhecer o pai para poder encontrá-lo à qualquer hora.






Carlos da Terra


terça-feira, 3 de julho de 2012

O Gato



                                                                   Carlos da Terra



          Eu nunca gostei muito de gatos!
          Não é que não gostasse nada; até gostava um pouco! Mas a minha preferência esteve sempre com os cães e os cavalos.
          Ludmila não!
          Ela tinha adoração por gatinhos e cuidou deste aqui, que está à minha frente, ronronando e se esfregando nos meus pés. Ele me faz afagos tão meiga e graciosamente como se fosse a própria Ludmila, quando me afagava os cabelos.
          E foi numa destas noites, assim com esta penumbra que hoje invade minha grande e solitária sala de jantar, que Ludmila desapareceu misteriosamente.
          Simplesmente ela sumiu, como se fosse uma brisa etérea, frágil, pouco espessa, das imediações do lago que existe em volta de nossa triste e enorme casa, que habita, hoje, tão somente eu e esta gata, que justamente após o desaparecimento de Ludmila, eu passei a chamar de Brisa!
          Tudo aconteceu tão depressa que, talvez, nunca se possa compreender certos fenômenos ligados, muito mais à nossa efêmera existência do que aos conhecimentos da douta ciência. Muitos fatos negados pela ciência, persistem a nos incomodar, muito embora não possam ser provados e mostrados para outras pessoas. No entanto, repito, estão por aí a nos incomodar e intrigar, preenchendo a lacuna entre um e outro universo de verdades.
           Gosto de deixar as luzes sempre apagadas, neste aposento, onde ela e eu conversávamos até tarde da noite, como eu disse, na penumbra. Gostávamos de falar sobre o destino de nossas almas.
          E havia, como ainda há, uma fresta na cortina da janela por onde passa uma nesga de luar e que fazia o rosto de Ludmila brilhar e revelar sua beleza sóbria.
          Curiosamente a gata Brisa coloca sua cor de ébano sob esse raio e por vezes, perdoa-me meu Deus, tenho a nítida impressão de estar com Ludmila.
          Mas como isso seria possível? É um delírio provocado pela saudade, certamente!
          
          Desde o misterioso desaparecimento dela, esse gato cor de ébano, me olha profundamente, como se estivesse policiando meus movimentos.

          Não sei o que se passou, mas agora ela entende tudo o que lhe digo e faz exatamente as coisas que eu lhe peço.
          E foi numa dessas noites solitárias que eu comecei a conversar com ela, demorada e pausadamente, com os olhos semicerrados, quando ela começou a circular e foi, meu Deus, caminhar lentamente sobre as teclas do piano aberto desde a partida de minha doce Ludmila.

O texto complementar poderá ser solicitado através do saite: