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terça-feira, 3 de julho de 2012

O Gato



                                                                   Carlos da Terra



          Eu nunca gostei muito de gatos!
          Não é que não gostasse nada; até gostava um pouco! Mas a minha preferência esteve sempre com os cães e os cavalos.
          Ludmila não!
          Ela tinha adoração por gatinhos e cuidou deste aqui, que está à minha frente, ronronando e se esfregando nos meus pés. Ele me faz afagos tão meiga e graciosamente como se fosse a própria Ludmila, quando me afagava os cabelos.
          E foi numa destas noites, assim com esta penumbra que hoje invade minha grande e solitária sala de jantar, que Ludmila desapareceu misteriosamente.
          Simplesmente ela sumiu, como se fosse uma brisa etérea, frágil, pouco espessa, das imediações do lago que existe em volta de nossa triste e enorme casa, que habita, hoje, tão somente eu e esta gata, que justamente após o desaparecimento de Ludmila, eu passei a chamar de Brisa!
          Tudo aconteceu tão depressa que, talvez, nunca se possa compreender certos fenômenos ligados, muito mais à nossa efêmera existência do que aos conhecimentos da douta ciência. Muitos fatos negados pela ciência, persistem a nos incomodar, muito embora não possam ser provados e mostrados para outras pessoas. No entanto, repito, estão por aí a nos incomodar e intrigar, preenchendo a lacuna entre um e outro universo de verdades.
           Gosto de deixar as luzes sempre apagadas, neste aposento, onde ela e eu conversávamos até tarde da noite, como eu disse, na penumbra. Gostávamos de falar sobre o destino de nossas almas.
          E havia, como ainda há, uma fresta na cortina da janela por onde passa uma nesga de luar e que fazia o rosto de Ludmila brilhar e revelar sua beleza sóbria.
          Curiosamente a gata Brisa coloca sua cor de ébano sob esse raio e por vezes, perdoa-me meu Deus, tenho a nítida impressão de estar com Ludmila.
          Mas como isso seria possível? É um delírio provocado pela saudade, certamente!
          
          Desde o misterioso desaparecimento dela, esse gato cor de ébano, me olha profundamente, como se estivesse policiando meus movimentos.

          Não sei o que se passou, mas agora ela entende tudo o que lhe digo e faz exatamente as coisas que eu lhe peço.
          E foi numa dessas noites solitárias que eu comecei a conversar com ela, demorada e pausadamente, com os olhos semicerrados, quando ela começou a circular e foi, meu Deus, caminhar lentamente sobre as teclas do piano aberto desde a partida de minha doce Ludmila.

O texto complementar poderá ser solicitado através do saite: